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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nós dois podíamos ser um casal de novela das oito...


Nem precisava de alguém dizendo "luz câmera ação!" para começar a cena.
Fazia parte do cotidiano, eu, você, os gritos, e as marcas no chão para mostrar o mapa do percurso durante a discussão. 

Uma demonstração de ciúmes, uma resposta malcriada, e a troca de ofensas ensaiada. 

Lembro que alternávamos a saída triunfal. Ora eu que dizia a última palavra e ameaçava ir embora, dessa vez pra sempre, como das outras mil, com mala em punho. Ora era você quem deixava uma frase no ar e se trancava no quarto pelo resto da noite.

As suas pausas eram preenchidas com o acender de um cigarro. Eu só tragava quando achava que, puta que pariu, ia mesmo acabar, mesmo, lá no fundo do peito, tendo certeza que nosso último capítulo seria um casamento com passagem de tempo e filhos no colo.

Os dramas evoluíram de tal forma que berros seriam pouco para atrair a platéia. O prédio todo devia acompanhar a história. Precisaríamos ir além. Quebrar o cenário, discutir em público, envolver coadjuvantes.

Estava tudo no script. Tão bem internalizado que nem precisava de dália.
Nós dois éramos um casal que roteirizava a própria relação.

Devíamos ter montado uma produtora. Faríamos um curta, uma websérie, talvez um programa para o Multishow e alçaríamos os sucesso. Mas preferimos viver essa história como se fôssemos personagens criando vida, e não o contrário.

Mas nem no fim o show poderia parar.
A nossa novela acabou sem filhos, nem casamento no final e você começou outra.
Deixei de ser sua mocinha. Você se tornou meu vilão.

Se dependesse de você, teria espaço para várias tramas, mas para essa emissora não escrevo mais. Afinal, ainda tem muito canal aberto por aí.

Mas me sobraram notas de bons diálogos para criar um casal de novela das oito.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Flerte e Preconceito


Post da nossa amiga Cineasta
baseado em fatos reais

Era dia 23 de dezembro. Eu tinha que ir para Petrópolis, mas só tinha ônibus às 15:45. Ainda eram 14 horas. Era um dia muito quente deste verão carioca. Ao invés de ir até ao CCBB fazer hora no ar condicionado, achei melhor fazer hora tomando um chopp nos arredores do Terminal Menezes Cortes, num dos bares próximos a Rua Nilo Peçanha, local do embarque. Pedi um chopp e por força das circunstâncias, puxei papo com um homem de aproximadamente uns 45 ou 50 anos que estava na mesa ao lado, também sozinho. Força das circunstâncias essa, tão tipicamente brasileira, que fez com que em aproximadamente 40 minutos ficássemos “amigos”. Ainda não existe termo para designar essas pessoas que conhecemos ao longo da vida e que de antemão sabemos que será difícil um reecontro no futuro. Porém, piriga que é piriga sempre vê possibilidades. Ao longo da conversa descobrimos afinidades e divergências. Vamos a elas.

Ele ama o nordeste. Eu também. Ele ama praia. Eu também. Ele ama frutos do mar. Eu também. Fui poucas vezes ao nordeste, mas foi suficiente para trocarmos informações e histórias particulares sobre a região. Até aí o papo tava digno.

Como de praxe, sempre que uma piriga inicia uma conversa com um homem qualquer, seja pra passar o tempo ou com segundas intenções, o que é prudente fazer? Dar aquele bizú geral. Ele não era bonito, não tinha grandes atributos físicos, digamos, mas é como eu sempre digo: homem tem que ser inteligente e bom de cama. Apenas isso. Beleza não é essencial. Beleza se constrói. Nada que uma malhaçãozinha de leve e uma roupa estilosa não possam dar um jeito. E nesse caso o papo fluia bem.

Logo depois, ainda na tag “viagens”, ele começou a falar sobre suas incursões na região sul do país, que eu ainda não tive o prazer de conhecer. Falou de Florianópolis, que tem praias lindas, é uma cidade limpa, organizada e tal. Até aí, tudo certo. Mas eis que ele solta a pérola podre: “Só tem gente bonita lá. Não tem preto... assim, não sou racista não, mas só tem gente linda mesmo”. WHAT?!?!

Qual é o conceito de beleza que ele tem na sua mente pútrida? Seja qual for, é abominável, só por esse comentário dá pra perceber. Ele continuou a tecer comentários sobre Floripa, mas a essa altura eu já tava com fadiga de continuar aquela conversa, bem como da cara dele. Nesse exato momento passa um homem correndo atrás de um menino numa velocidade tal que só o que deu pra ver era que o menino era maltrapilho e negro e o homem era bem vestido. Diante do ocorrido, esse cidadão que conversava comigo lança uma pérola mais podre ainda: “Por mim pegava essa gente, botava num navio de volta e quando chegasse tacava fogo lá”. Cadê reação num momento desse??? O que eu queria era cuspir na cara desse sujeito. Pedi a conta imediatamente e me preparei para levantar acampamento.

Ah, já ia esquecendo. Antes de iniciarmos esta conversa, como é de costume nos bate papos à moda brasileira nas mesas dos bares, falamos um pouco sobre quem somos e sobre o que fazemos da vida. Ele é agrônomo e tem uma propriedade rural próximo a Macaé. Como um dos assuntos que tem me interessado cada vez mais é sustentabilidade como alternativa, pensei na hora “olha que digno!”. No entanto, a conversa que poderia ser interessante descambou pra outro lado e pude ver que nem sempre conhecimento significa sabedoria. Esse indivíduo se mostrou bastante ignorante, preconceito e nojento. No fim, ainda teve a desfaçatez de me cantar e perguntar se poderíamos nos ver novamente. Eu peguei o cartão dele e disse “sim, claro”. Menti, obviamente. O idiota vai morrer esperando minha ligação. O cartão evidentemente já foi pro lixo. Sujeitinho mais intragável!

Fica a dica para os candidatos a rabiscos: o mundo evoluiu, as mulheres evoluiram, as pessoas no geral evoluiram... então vê se vocês conseguem acompanhar o ritmo, tá? Gato, você pode ser o homem mais interessante do mundo, mas PRECONCEITO NÃO DÁ!!!!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Macheza em Si

Estava esperando um yakissoba na lanchonete embaixo do meu prédio, quando de repente entrou um homem de uns 32 anos, moreno-jambo-carioca, shortinho de ginastica, blusinha cinza, ténis e masculinidade. Aliás, muitaaa masculinidade. E quando falo dela, não me refiro à brutalidade, culto a falos ou a algo mais estereotipado... E sim a uma macheza pura, a uma macheza em si, dessas que de tão incognoscível não se faz possível explanação completa.

E assim, sentado de pernas abertas, com o short marcando a coxa, barba pra fazer de 3 dias e com uma simplicidade genuína na voz solicitou urgentemente um café.

"Pingado? Média? Com açúcar?" – requereu o garçom.

"Não. Puro."
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